“Deve-se aprender a viver por toda a vida e,
por mais que tu, talvez te espantes,
a vida toda é um aprender a morrer” Sêneca
Decidi exteriorizar uma das minhas maiores angústias, para não dizer medo, da qual sofro atualmente. Por que estes questionamentos passaram a me afligir assim, tão de repente? Em meio ao banho ou em qualquer intervalo de tempo que tenho para refletir coisas da vida, acabo por refletir também o fim desta, a morte. Tombado inesperadamente pelo que talvez seja o maior conflito existencial, passei então a buscar em livros e publicações na internet a história da humanidade perante este fato e suas diferentes concepções para tal, bem como as influencias determinadas pela religião, cultura, família e outros fatores.
Afirmam que o Homem é o único ser vivo consciente do seu fim e, para aqueles que acreditam, consciente de uma vida após a morte. Mas, sem consciência da morte, não agiriam os outros seres inconsequentemente, despreocupados com seus atos e com as situações pelas quais passariam em vida? Se fogem ou atacam para se defender, para sobreviver, não estariam de alguma forma sentindo medo da morte? Joanna Angelis diz que “o medo da morte resulta do instinto de conservação que trabalha a favor da manutenção da existência”. Com certeza existem mais explicações coerentes para estas questões, como a de Joanna Ângelis, mas não irão diminuir a minha angústia perante o fato de deixar de existir.
Nos meus momentos de masoquismo psicológico, ponho-me questionar os paradoxos da minha existência. Qual o sentido de conquistar grandes realizações em vida se de qualquer forma o meu fim é a morte? Por outro lado, convicto de que morrerei, não deveria eu buscar realizar todos o meus desejos enquanto vivo para fazer valer a pena? Será que é possível pensar das duas formas ao mesmo tempo? Acredite, é possível!
Heidegger, por exemplo, defendia que a experiência da angústia de morte torna-se o sentido para a própria vida. Torres (1983) também pensava desta forma ao afirmar que “... o medo da morte é o medo básico e ao mesmo tempo fonte de todas as nossas realizações: tudo aquilo que fazemos é para transcender a morte” e “todas as etapas do desenvolvimento são na verdade formas de protesto universal contra o acidente da morte”. Renato Kress também afirmou: “A consciência da mortalidade faz com que todo o ato humano seja dotado de um sentido tão precioso quanto único. Os atos se tornam preciosos pela preciosidade dos momentos.” e por fim ele questiona que se fosse possível a imortalidade, “qual sentido haveria em todas as coisas que laboriosamente juntamos a fim de injetar um propósito em nossa vida absurdamente breve?” Realmente, pensando desta forma, a consciência da morte seria um estímulo, um impulso responsável por movermos-nos a alcançar grande parte, se não todas, das nossas conquistas. Já Sartre a condena, “acusando-a de furtar qualquer significado à existência humana.”
Estes pensadores me levam e descrever dois segmentos opostos e interessantes sobre como lidar com esta questão. O primeiro é o Estoicismo, que defende que “o homem deve se despojar de todos os seus desejos e prazeres como forma de tornar-se disponível para a morte, isto é, como forma de estar preparado para ela, visto que este é o único meio de derrotá-la”, desta forma interpreta que a privação do homem é “a oportunidade única de esvaziar a morte de qualquer sentido”. Assim, “quando já se privou de tudo, não há nada que o homem deva temer, afinal, ela não lhe poderá furtar mais nada.”
Já o Epicurismo propõe que a vida seja aproveitada ao máximo. para Epicuro, não há sentido em preocupar-se com a morte, pois “enquanto vivemos, ela não existe e, quando já estamos mortos, nós não existimos. Dessa forma, homem e morte jamais se encontram.” Mesmo que a morte exista de fato, o homem jámais a conhecerá “pois sempre que ela se faz presente, a consciência humana está ausente – morto, o homem já não dispõe de sensibilidade, logo, lhe é impossível apreender a morte.”
Influenciado por pessoas próximas e pela minha religião, sou levado a crer que existe uma vida após a morte, que esta é uma vida passageira e que o espírito, este sim, é eterno. Levado a crer que devo me desapegar dos bens materiais e aceitar a morte como um retorno ao meu estado de origem e ainda de que o espírito sempre alterna entre estes dois mundos (material e espiritual) com a missão de evoluir constantemente. Mas como posso acreditar em tudo isso e ainda assim não aceitar o fato de que um dia deixarei de existir? Por que nem mesmo a fé reduz o meu desespero de um dia ser apenas pó? Por que não consigo aceitar que um dia ficarei velho e morrerei? Muitos morrem antes mesmo de alcançarem esta fase da vida, por diversos motivos, seja um acidente de carro, um tiro, afogamento, ataque cardíaco, entre outros. Seria esta a saída para não esperar a velhice chegar e com ela a morte? Morrer antes que a morte chegue? Alguns buscam o suicídio com este intuito, mas não acho que seja o meu caso, talvez por isso escrevo tudo aqui, para externar estes sentimentos e não chegar a tal ponto. Além de que, não faz sentido para mim “morrer para não morrer”. O suicídio como fuga é coerente, mas não quando se foge da morte. Por isso, os que cometem tal ato para fugir da atual situação em vida, estes sim ainda entendo. Voltando às influências da religião, não seriam estas idéias de um “céu” após a morte, apenas uma falácia para confortar aqueles que a teme e a idéia de inferno apenas para amedrontar os crentes e reprimi-los a cometer atos vistos como pecado perante a visão de alguém? Talvez.
Já sobre meu ponto de vista biológico, acredito que o ideal seria não fugir da morte. De que adianta manter-se vivo através de atraentes pílulas coloridas? Ir contra a força da natureza, contra a própria Seleção Natural? Manter um doente vivo através de remédios possibilitaria a disseminação da doença, o possível surgimento de outras ainda mais resistentes e arrasadoras, o prolongamento do sofrimento, etc. Quem quiser que discorde de mim, mas não estou louco.
Conciliando o que penso com tudo que absorvi de algumas idéias sobre tal assunto, entendo que devo dar mais valores aos momentos da vida e aproveitá-la ao máximo, já que sobre a morte não possuo nenhum controle. Mas, concomitantemente, preparar-me para tal de forma consciente, ao invés de repudiá-la por completo, mesmo que seja um fato externo ao meu “eu”, como o nascer. Não posso negar que houve momentos em que pensei em desistir de tudo, não por medo da morte, mas por decepção pela vida. Talvez não haja atitude tão covarde quanto o suicídio, assim como também não há uma tão corajosa quanto aceitar viver até os últimos momentos.
Ivisson Moraes

5:36 PM

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